"Não o alimentem com pipoca!"

Crônica

Era uma típica tarde de maio em Salvador. Bastava cair aquela chuvinha fina para ver, nas ruas da capital baiana, o congestionamento de guarda-chuvas e sombrinhas. Motivo para alguns tirarem do armário aquele casaco com cheiro de naftalina, para se protegerem do “frio”. Se é que faz frio nesta cidade.

Apesar de ser usuário do sistema de transportes coletivo – o popular “buzú” – ou mais conhecido como “humilhante”, fui o primeiro a chegar ao local combinado do encontro. Deveríamos realizar um trabalho de faculdade. Não seria nada complicado ou demorado. Entrevistaríamos um repórter do jornal A Tarde.

Aos poucos foram chegando os membros da “patota”, um a um. Eu, “Bia” e “Babinha”. Agora, só faltava esperar a quarta integrante do “grupo dos Minhoquinhas”. De repente, “Liloca” liga para o celular de Babinha e pergunta onde estávamos? “Como assim, onde estávamos? Lá foi ela para a outra entrada. Não prestou a atenção quando disse que era na principal”, pensei eu, já ensaiando o esporro. Que nada! Tive de guarda-lo para uma próxima ocasião. Ela já estava dentro do prédio do jornal, acenando para a gente. Coisas de Liloca!

Fomos recebidos com muita simpatia pelo nosso perfilado e a entrevista corria sem problemas, quando passa pela sala que antecede a redação – onde os visitantes são atendidos -, um jornalista cabeludo, com cara de roqueiro, que verbaliza: “Não o alimentem com pipoca!”. Na hora confesso, que ingenuamente, até pensei que nosso entrevistado gostasse de pipoca doce. Daquelas que vem no saco vermelho. Acho que essa idéia veio conduzida pela fome que estava sentindo no momento ou pelo fato de gostar desse tipo de pipoca.

Finalizado o interrogatório, ele nos acompanha até a portaria. Um papo mais descontraído, motiva Liloca a perguntar o significado da expressão usada por seu colega de trabalho. O pobre jornalista dá um sorriso amarelo e sem jeito, responde explicando que os estudantes de comunicação quando visitam o jornal, cercam os jornalistas e os idolatram como se fossem animais no zoológico em dia de domingo. Mas, como assim?! Cadê o macaquinho e a girafa? E a curiosa não contém o riso, chegando a ficar vermelha.

Essa também vai para os anais da minha vida acadêmica, fazendo companhia com a história da “minhoquinha”. Ah, vocês não conhecem a história da minhoquinha? Então, vamos lá. Podem ficar calmos que serei breve. É sempre bom avisar, antes que um leitor mais afoito desista da leitura.

Havia acabado de ingressar na faculdade de comunicação e após mais uma dessas palestras sobre o futuro da profissão, caminhava até o ponto de ônibus conversando com uma colega de curso, só que do 5° semestre. A conversa girava em torno das dificuldades do estágio em jornalismo. Foi quando ela me disse que estudante do 1° período, como eu, é a terceira pessoa depois do formando. Seguindo esse raciocínio, constatamos que os recém-formados ou os que estão concluindo o curso, são chamados nas redações de “focas”, logo eu, seria uma sardinha. Sardinha, não. Seria a isca da sardinha, ou seja, a fatídica “minhoca”. E o pior é que o apelido da turma pegou e até a coordenadora do curso, se referia a minha turma de primeiro semestre como a “turma dos minhoquinhas”. Vocês pensam que é fácil essa vida de estudante de jornalismo?

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