“Põe sua mão protetora em minha cabeça e me faz dormir”

Pode parecer ironia do destino, mas no intervalo de 21 dias tive de voltar, anteontem (dia 19), ao Cemitério do Campo Santo, em  Salvador. Desta vez para sepultar minha avó. Todos sabiam que seu estado era delicado, mas sua lucidez e força de vontade de ir logo para casa, nos enchia de esperanças de sua plena recuperação.

Na terça-feira (18), ao receber na UCI (Unidade de Cuidados Intensivos) a visita de meu irmão, minha avó perguntou-lhe: “Vou voltar para casa?”. O que prontamente respondeu meu irmão: “Claro vó! E só a senhora melhorar dessa febre, que eu venho buscar a senhora!”. Dias anteriores ela estava agitada, não queria que ninguém a tocasse e não queria que ninguém a visse. Já na terça-feira, não! Estava calma, carinhoso como sempre foi. Não queria que minha mãe fosse embora e por quatro vezes, ao ver que minha mãe se despedir, minha vó segurava em sua mãe, apertando com toda a força que tinha em seu frágil e delicado corpinho, pedindo para que minha mãe ficasse li com ela.

É triste olhar para os lugares aqui em casa e sentir a falta de meus dois “velhinhos”. As tardes ficaram tão vazias sem eles. Está faltando minha avó para reclamar que a almofada estava esquentando sua perna, que queria pôr as pernas para baixo, para que Jacira (nossa secretária e anjo da guarda) não colocasse remédio em sua sopa e que não queria comer nada. Que estava sempre satisfeita. Está falta suas reclamações ranzinzas sobre “Carlota” e “Geninha”, que segundo ela, ficavam falando uma porção de besteiras em seu ouvido. Falta minha avó! Falta parte de nossas vidas.

Falta que minha mãe sente em dobro. Tento ser forte e consolá-la, mas não é fácil para mim perder a doçura que me restara na vida e ver o sofrimento de minha mãe e imaginar que algum dia estarei no seu lugar, sofrendo sua perda. Não quero nem imaginar o que será de mim neste fatídico dia. É duro ver minha mãe chorar e clamar para que minha vó ponha sua mão protetora em sua cabeça e a faça dormir.

Porque temos que perder quem amamos? Porque tenho que aprender a lidar com a perda tão cedo? Só tenho vinte anos e já tive que abrir mão de muita gente que amo! Meu primeiro grande amor, meu tiomeu amigo de infância, meu avô e agora minha avó.

No velório (dia 19/11), eu tocava a mãozinha de minha vó, já fria, roxiada e inerte. Mão que sempre foi fina e frágil. A mesma mãozinha, que ela usava para me enviar os tradicionais beijos, no inicio da tarde, ao passar por mim para ir tomar banho. Neste momento eu poderia esperar, porque vinha a sua bênção em forma de frase, que ecoa ainda em minha mente: “Deus lhe abençoe, Jornalista!“. Assim que ela me trata, por “Jornalista”.

Tenho que ensinar a minha mãe novamente a “VIVER”. Ela abdicou de sua carreia profissional para cuidar de mim e meus irmãos, da casa, de meu pai e nos últimos cinco anos de meus avós. Já não tinha mas vida social. Não se preocupava em comprar roupas para ela, fazer as unhas, o cabelo. Só pensava em nosso bem estar, em não deixar falar nada e da melhor forma cuidar de todos nós.

Mãe zelosa e filha dedicada, essas duas palavras que podem descrever a pessoa que ainda se sente culpada por não ter ficado ao lado de minha avó até os últimos instantes, mesmo que para isso precisasse contrariar a determinação do hospital, sobre as visitas a UCI. Até agora é fácil ouvir um soluçar aqui outro ali, de alguém a chorar piedosamente. Todos nós procuramos esconder nossa tristeza em nossos quartos escuros e no nosso intimo para não fragilizar o outro.

Algumas cenas ficarão na minha mente e na das pessoas que no velório se fizeram presente. O pior memento é o fechamento do caixão. A impressão que me dá é que estou abandonando a pessoa. O beijo que meu irmão me deu ao nos abraçarmos, vendo o túmulo ser fechado e minha mãe e eu debruçados ao caixão, tentado recitar a música “Você não me ensinou a te esquecer”. Só consegui lembrar do refrão: “Agora, que faço eu da vida sem você / Você não me ensinou a te esquecer / Você só me ensinou a te querer“.

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